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Esta pesquisa investiga o papel das narrativas orais na preservação da memória e da identidade cultural da comunidade quilombola de Lagoa do Zeca (Canarana, Bahia), a partir do acervo documental do grupo de pesquisa Estudos Linguísticos, Literários e Históricos do Sertão (ELLiHS/CNPq), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A hipótese central é a de que a oralidade funciona como guardiã da memória coletiva da comunidade, preservando saberes ancestrais, identidades e resistências que não encontram equivalente em nenhum registro escrito. Contudo, a memória não é apenas passiva em sua função guardadora: ela é também ativa, produtiva e construtiva, atuando na recriação permanente das identidades coletivas e na produção de sentidos sobre o presente e o futuro da comunidade, como argumenta Pollak (1992) ao demonstrar que a memória seleciona, organiza e ressignifica o passado em função das demandas do presente. Nesse sentido, as narrativas orais de Lagoa do Zeca não apenas “guardam” o que foi vivido: elas o transformam, o atualizam e o mobilizam como instrumento de luta e de afirmação identitária. O corpus de análise é composto por cinco entrevistas realizadas com moradoras de Lagoa do Zeca, com idades entre 48 e 83 anos. A fundamentação teórica articula estudos da tradição oral (Hampâté Bâ, 2010; Cascudo, 2012), da memória coletiva (Pollak, 1992; Le Goff, 2003), da identidade cultural quilombola (Fernandes, 2023a, 2023b; Santos, 2023) e da sociolinguística de comunidades afro-brasileiras (Silva, 2023a; Lucchesi, 2009; Santana; Araújo; Freitag, 2018). Os resultados demonstram que as narrativas orais de Lagoa do Zeca cumprem funções simultâneas e indissociáveis: preservam a história da comunidade; transmitem saberes práticos sobre o território, a medicina popular e as práticas religiosas de matriz africana; constroem e reforçam a identidade coletiva quilombola; e operam como formas de resistência cultural e política diante dos processos históricos de apagamento. A pesquisa evidencia, ainda, que a identidade quilombola de Lagoa do Zeca é uma construção dinâmica, tecida coletivamente pela oralidade: ela não é um dado fixo e herdado de forma passiva, mas um processo contínuo de afirmação, negociação e reinvenção, no qual as narrativas dos mais velhos dialogam com as experiências dos mais jovens, produzindo um sentido de pertencimento e continuidade histórica que atravessa gerações (Pollak, 1992; Fernandes, 2023a). A pesquisa também evidencia que o acervo do ELLiHS constitui uma fonte oral de inestimável valor para a sócio-história das comunidades afro-brasileiras – como propõe Silva (2023a) –, dado que as entrevistas capturam, além de dados variacionistas, narrativas fundadoras, causos, memórias afetivas e marcas linguísticas de origem africana que não estariam acessíveis por nenhum outro meio de documentação.