UPT para quê? Narrativa autobiográfica de um homem negro para a entrada na Universidade do Estado da Bahia - UNEB
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Resumo
O presente Trabalho de Conclusão de Curso apresenta uma narrativa com perspectiva autobiográfica de um homem negro e sua caminhada para entrada na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), adepto da religião de matriz africana Candomblé, trabalhador rural e morador de um território periférico, pertencente à ramificação familiar da Comunidade Quilombola dos Paus Pretos. Por meio de relatos autobiográficos inspirado nas escrevivências, a pesquisa reconstruiu minha trajetória de vida, evidenciando os deslocamentos físicos, subjetivos e simbólicos que marcam o caminho até minha inserção no Curso de Licenciatura em Teatro, mediada pelo curso pré-vestibular Universidade para Todos (UPT). A narrativa contempla os desafios enfrentados por jovens negros na busca pelo ensino superior público, destacando processos de exclusão estrutural, como o racismo, a precarização das condições de trabalho, as limitações educacionais, a gentrificação e a imposição de papéis sociais subalternos aos corpos negros, ao mesmo tempo em que revela estratégias de resistência, pertencimento e reinvenção que emergem na convivência comunitária e familiar. A análise é construída por um narrador-personagem que compreende sua própria vida como território de aprendizagem, interligando suas vivências às produções literárias presentes em seu livro Um Conto e 40 Poemas: Mainha Vivências e Poesia (Cardoso, 2023). A escrita, nesse contexto, assume um papel político e epistêmico: torna-se ferramenta de elaboração identitária e de denúncia das violências estruturais que modulam a existência negra no Brasil. O trabalho também se ancora no conceito de escrevivências formulado por Evaristo (2004), articulando-o às reflexões culturais de Laraia (1986), às discussões sobre identidade e diferença propostas por Silva (2000), às análises de subjetividade negra de Nogueira (2021) e às contribuições de Pinto (2025) sobre território, raça e pertencimento. Dialoga-se também com as Pedagogias das Encruzilhadas (Rufino, 2019), que iluminam os caminhos formativos que emergem dos rituais, corporalidades e saberes do Candomblé, bem como, com a educação crítica de Freire (1983), que compreende a escolarização como prática libertadora, e com a literatura insurgente de Evaristo (2004), que textualiza a dor, a memória e a resistência dos povos negros. Os aportes da antropologia da performance (Turner, 1982; Schechner, 2013) e dos estudos teatrais colaboram para compreender como o corpo do autor — corpo negro, espiritualizado, político e cênico — se torna espaço de aprendizagem e enunciação de saberes que não cabem nos moldes tradicionais da academia. O estudo dedica especial atenção ao Programa Universidade para Todos (UPT) enquanto política pública de acesso, permanência e reconfiguração das possibilidades educativas para jovens historicamente subalternizados. O UPT surge na narrativa como encruzilhada e instrumento de democratização do ensino superior, abrindo brechas de esperança e projetando novos horizontes para aqueles que, como o autor, enfrentaram legados de desigualdade, silenciamento e negação de oportunidades. Assim, o TCC analisa a educação como força emancipadora capaz de reconfigurar destinos que, por séculos, foram impostos aos corpos negros, sobretudo no contexto quilombola, rural e periférico. Entre a memória ancestral, o trabalho árduo, a literatura, o teatro, o Candomblé, o UPT e a universidade, este trabalho narra uma trajetória que não se encerra no indivíduo, mas que ecoa a experiência coletiva de muitos homens e mulheres negros que, diariamente, reinventam seus lugares no mundo. Dessa forma, este estudo celebra e denuncia, simultaneamente, as nuances e contradições que compõem a vivência e a formação de um homem negro, quilombola e periférico, cuja escrevivência insurgente se apresenta como testemunho e afirmação de existência em um país marcado por desigualdades históricas. Ao inscrever-se e ao escrever-se, o autor reivindica o direito de ser, formar-se e permanecer.