Por uma pedagogia da variação linguística na educação básica:o estudo das construções relativas
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Resumo
Responsáveis por estabelecer relações anafóricas entre termos e orações, as construções relativas constituem um dos pontos mais sensíveis do vernáculo geral brasileiro (VGB), tanto pela complexidade estrutural quanto pela distância entre norma-padrão portuguesa e os usos vernaculares reais. Trabalhos anteriores (Bagno, 2001) demonstram que o VGB organiza suas relativas de modo próprio, recorrendo majoritariamente ao pronome que em seu uso, em situações em que a norma-padrão portuguesa exige preposição: Ele é o rapaz de que lhe falei. Assume, assim, uma estratégia cortadora – Ele é o rapaz que lhe falei –, cortando a preposição; ou uma copiadora – Ele é o rapaz que lhe falei dele –, em que se copia o pronome antecedente ao relativo. A essas duas formas vernaculares a escola raramente contempla, o que enseja o estudo de como estudantes do 3º ano do Ensino Médio mobilizam essas construções na escrita escolar, observando em que medida suas escolhas dialogam, ou se afastam do funcionamento efetivo do VGB descrito pelos estudos de variação sociolinguística. O corpus contempla 47 redações produzidas durante o Estágio Supervisionado IV, de regência, continuidade ao período de observação iniciado no Estágio Supervisionado III, onde se constatou um ensino centrado na memorização normativa e na apresentação do pronome que como praticamente único relativizador. Desde uma abordagem qualitativa e interpretativa, com descrição dos dados e categorização das estratégias de relativização, os resultados revelam predomínio de relativas introduzidas por que (78,7%) em sua forma padrão portuguesa, ausência das estratégias cortadora e copiadora, uso residual de onde e o qual e duas ocorrências equivocadas, conforme aquele padrão, de cujo. Isto demostra que, marcada pela vigilância normativa e pela insegurança diante da avaliação, a escrita escolar não reflete o repertório de fala dos alunos e que, mesmo a aplicação de uma pedagogia da variação linguística não é suficiente, sem condições estruturais e tempo pedagógico, não permite ao estudante arriscar, refletir e escrever com autonomia.