Navegando por Autor "Jesus, Vilebaldo Santos de"
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- ItemMemórias abensonhadas: a identidade e o sagrado na poética oral das benzedeiras da cidade de Saúde/BA(Universidade do Estado da Bahia, 2025-12-19) Jesus, Vilebaldo Santos de; Menezes, Adriano Antônio Lima; Vasconcelos, Claúdia Pereira; Cunha, Rúbia Mara de Sousa LapaA presente monografia realiza uma escuta sensível e poética das práticas, memórias e identidades das benzedeiras de Saúde, Bahia, reconhecendo-as como sujeitas históricas e guardiãs de saberes ancestrais que articulam fé, cura e poética oral em uma epistemologia viva, insurgente e comunitária. Alicerçada nas epistemologias das benzedeiras do município (D. Nenzinha; D. Lemilza; D. Nilda; D. Bia e D. Dene) e nas perspectivas da Sociopoética e Contracolonialidade (Gauthier, 2024) e da ideia de Performance (Zumthor, 2007), a pesquisa parte da hipótese de que o ofício das benzedeiras compõe um documento social e histórico, capaz de preservar e transmitir saberes, memórias e identidades afro-indígenas. Ao valorizar a palavra proferida como acontecimento e documento, o estudo revela nas rezas, gestos e rituais dessas mulheres uma produção de conhecimento que se firma fora das lógicas coloniais e eurocêntricas. Evidencia-se, assim, uma religiosidade híbrida, sustentada pela força da oralitura (Martins, 2021 e 2024) e da negativa às narrativas de histórias únicas (Adichie, 2019), expressas em práticas que configuram medicinas ancestrais e poéticas de resistência. O dom, transmitido entre gerações, inscreve-se como herança espiritual e política, reafirmando a centralidade das epistemologias do negro visto por ele mesmo (Nascimento, 2022). A crença, abordada como forma de resistência cultural, histórica e poética, mostra-se estruturante na vida comunitária, especialmente nas confluências (Bispo dos Santos, 2023) que entrelaçam corpo, território, raça, gênero e classe. Cada bênção, compreendida como performance de cura e resistência, torna-se gesto de linguagem e de existência – uma narrativa viva que, ao conjugar fé, palavra e memória, atua como registro histórico e sociopoético de um povo. Inspirando-se em Evaristo (2005), a pesquisa afirma que rezar é narrar, lembrar e resistir ao esquecimento, reafirmando a “escrevivência” das benzedeiras como documento imaterial que cura e reinscreve no tempo as histórias e saberes orais dos interiores. Diante do risco contemporâneo de desaparecimento dessas práticas, o estudo defende sua preservação enquanto patrimônio imaterial e propõe, na desconclusância ou arrudêa, um encerramento circular que celebra a continuidade da escuta e da partilha, reconhecendo que, nas benzedeiras de Saúde/BA, a palavra é corpo, memória e fé – poética ancestral afro-indígena que cura, performa, documenta e resiste.